Candidatos ainda não se deram conta que o dinheiro acabou e a campanha política ficou mais curta.
Quando perceberem talvez não dê mais tempo de correr atrás do eleitor.

A reforma política não mudou tudo o que os brasileiros gostariam, mas as mudanças aprovadas pelo Congresso impactarão profundamente a maneira de se fazer campanhas políticas no Brasil.

Dentre todas, podemos elencar as principais: redução do tempo de televisão, de 45 para 30 dias; proibição das doações empresariais; limite de gastos em campanhas e; uma das mais relevantes, mas pouco comentadas, a permissão aos candidatos de se apresentarem publicamente a qualquer tempo, ato que antes só era possível após as convenções partidárias, próximas às eleições.

Os elementos desse pacote são bombásticos para o modelo antigo de campanha eleitoral em que havia muito dinheiro envolvido. Metade de todo o investimento era destinado à televisão e o tempo de exposição do candidato era limitado ao período eleitoral, inferior a 120 dias.

A ausência das empresas como fonte de recursos imposta pela nova lei reduz drasticamente o potencial de investimento dos candidatos, algo nunca visto em nossa democracia. Para se ter uma dimensão do impacto que apenas essa decisão pode causar, um estudo recente mostrou que candidatos que foram eleitos em 2014 gastaram quase onze vezes mais do que os não eleitos.

Com pouco dinheiro, as campanhas precisam se reinventar e, desde já, colocar o carro na rua, dada a liberação da exposição dos candidatos. O investimento, que antes se concentrava em dois meses, e que em 2016 será muito menor, precisará ser alocado em, no mínimo, seis meses. Será muito difícil para os candidatos investir em militância paga, o que era uma prática muito comum nas campanhas brasileiras.

Uma campanha para a prefeitura de capitais, como São Paulo ou Rio de Janeiro, chegava a contratar cerca de três a cinco mil pessoas como cabos eleitorais. Isso sem contar o “patrocínio” às chamadas lideranças comunitárias. Com a reforma eleitoral essa fonte secou.

Para equilibrar tal perda de força, será preciso construir a imagem do candidato antes do período eleitoral, até porque, sem apoio presencial e com o tempo correndo contra, quem não chegar no período eleitoral já com uma base forte, provavelmente não será bem votado.

A tábua de salvação das campanhas passa a ser, a internet, único meio de comunicação capaz de segmentar o conteúdo de acordo com a região e público alvo, ampliando a interlocução entre emissor e impactados.

O eleitor conectado não quer discursos ensaiados, conversa fiada ou frases motivacionais. Ele quer saber o que o político pensa sobre a descriminalização da maconha, da legislação sobre o aborto, da definição de família e de qualquer outra pauta que altere a vida da sociedade.

Em uma campanha tradicional, o medo de perder votos de certos segmentos faz os candidatos fugirem dos temas polêmicos o máximo que podem, só tocando neles quando a mídia assim exige. Na internet, se o candidato quiser ter militância será obrigado a se comprometer com algumas pautas. O eleitor conectado é muito mais crítico e exigente, para conquistá-lo só há um caminho: transparência.

Há um ditado que diz que você pode enganar muitas pessoas por pouco tempo ou poucas pessoas por muito tempo. Em tempos digitais é praticamente impossível enganar alguém por pouquíssimo tempo. Uma mentira ou omissão é facilmente descoberta em questão de horas.

Como em tudo na vida, quem se adaptar, sobreviverá.

 

Fonte: EXAME